15 de junho de 2026

Bolsonaro pratica estelionato sentimental, por Marco Piva

Jurisprudência adotada em 2015, considera crime o uso do afeto de uma relação de confiança para obter vantagem ilícita

Bolsonaro pratica estelionato sentimental

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por Marco Piva

O pastor batista Yago Martins, contemporâneo de Eduardo Bolsonaro num curso de pós-graduação, afirma com todas as letras numa entrevista ao portal de notícias UOL (13/06/22) que o presidente Jair Bolsonaro teve uma condução assassina na pandemia e que qualquer evangélico pró-vida não pode dar o seu voto a ele. Autor do livro “A religião do bolsonarismo”, Yago foi um dos 58 milhões de eleitores que deram a vitória a Jair Bolsonaro em 2018. Hoje, garante que não fará mais isso, embora tampouco votará em Lula, já que considera o PT um partido autoritário e se declare em “profundo estado de ateísmo político”. Ele atribui o apoio a Bolsonaro a “medos razoavelmente legítimos do crente comum que chegam ao nível da neurose”.

Pano rápido.

Guilherme Selister, um jovem gaúcho de 27 anos, está sendo acusado por “Marcela” (nome fictício), de 32 anos, por “estelionato sentimental”. Ela alega que o namoro de dois meses com o rapaz bonito e atlético resultou em dívida acima de 80 mil reais. Os dois se conheceram num aplicativo de relacionamentos. Envolvida emocionalmente, aceitou dar dinheiro ao namorado acreditando na história de que ele deveria fazer uma delicada cirurgia no cérebro. O jovem desapareceu com o dinheiro e ela fez um boletim de ocorrência na delegacia, apoiada pelo Ministério Público. Embora não exista uma tipificação exclusiva no código penal para este tipo de caso, o artigo 171, que trata de estelionato, foi ampliado por decisão de uma jurisprudência de 2015 adotada pela Justiça. A partir daquele momento, surgiu o “estelionato sentimental”. A advogada e especialista em direitos das mulheres Gabriela de Souza, de Porto Alegre, resume assim essa condição: “É um estelionato em que a pessoa usa do afeto de uma relação de confiança, sempre com vítimas vulneráveis, mais velhas, em situação de recém-separação, para desse relacionamento obter vantagem ilícita. Resumidamente, as usam para ganhar dinheiro”.

Pano rápido.

Mas o que a situação de “Marcela” tem a ver com os eleitores de Jair Bolsonaro? Ambos sofreram “estelionato sentimental” passível de denúncia criminal. A jovem por ser enganada com base numa relação emocional. Os seguidores do presidente pelo fato de considerá-lo um ferrenho defensor da vida, dos bons costumes e do difuso conceito de “cidadão de bem”.

O medo, já se sabe, é um forte componente humano. Levado ao extremo, se torna um instrumento de manipulação pelo outro. A pessoa fica paralisada e incapaz de tomar decisões que fujam da neurose instalada. O mecanismo de dominação é praticamente o mesmo e, muitas vezes, vem da falsa sensação de segurança, acolhimento e amor que aquele outro transmite. No final, a tragédia é igualmente a mesma.

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Bolsonaro trabalha com o medo. O fez magistralmente em 2018 e tenta fazer isto de novo em 2022. Qual é o problema agora? O tempo passou na janela e só Carolina não viu. Antes tarde do que nunca, a realidade se impõe trazendo medos ainda maiores como a falta de emprego, de renda e de perspectiva. Além disso, os preços dos alimentos nas gôndolas do supermercado e nas feiras não abrem espaço para que o “perigo do aborto” seja mais importante do que garantir a sobrevivência e espantar a fome.

Mesmo assim, ainda existem muitas “Marcelas” pelo país afora, o que torna difícil entender como o “estelionato sentimental” ainda exista no amor e na política.

Marco Piva é jornalista, apresentador do programa Brasil Latino (Rádio USP) e diretor de comunicação da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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